segunda-feira, 8 de junho de 2015

Livro: “A Violência da Revolução Verde” – Vandana Shiva

Livro: “A Violência da Revolução Verde"” – Vandana Shiva

“A universalização da proteção da vida é um imperativo ético.”

Vandana Shiva é indiana, PhD em física e ativista pela diversidade de sementes e pela autonomia dos agricultores frente ao modelo de ciência, tecnologia e economia agrícola imposto pelas multinacionais e instituições ligadas aos centros do sistema mundial capitalista (colonialismo agrícola?), para resumir uma problemática complexa em uma sentença. Ela é fundadora do movimento Navdanya (http://navdanya.org/), que quer dizer “nove sementes”, ou “novo presente”, dedicado ao fortalecimento das redes de preservação e compartilhamento de sementes, soberania alimentar, agricultura sustentável, transmissão de conhecimentos e preservação de saberes tradicionais. Além disso, o movimento atua na conscientização sobre os riscos da engenharia genética e defendendo direitos populares contra a biopirataria e pelos direitos alimentares.
           
Em “The Violence of the Green Revolution”, publicado pela primeira vez em 1991, Shiva traça um panorama da história e dos efeitos da introdução da revolução verde na província indiana do Punjab, a partir do qual desdobra observações de alcance global, que pintam um quadro alarmante dos caminhos que já tomava então a política agrícola promovida pelos atores centrais no cenário mundial durante a guerra fria, e que vinha sendo implementada pelo Estado indiano.
           
O período após o fim da Segunda Guerra Mundial foi marcado pela emergência da noção de terceiro mundo, e de uma política por parte do chamado ocidente capitalista, centrado no Atlântico Norte,  de promover o desenvolvimento nos países descritos como “subdesenvolvidos” com o objetivo de prevenir a expansão do socialismo. A revolução verde fez parte dessagrande estratégia.
           
Promovida por uma articulação entre institutos de pesquisa, fundações como a Ford e a Rockfeller e organismos internacionais, a revolução verde consistiu na substituição de variedades de plantas e métodos de cultivo autóctones por um pacote tecnológico composto pela introdução de novas “variedades de alto rendimento” (High Yielding Varieties ou HYVs) , plantas que supostamente aumentariam a produção alimentar, mediante a aplicação de fertilizantes químicos como insumo. A política agrícola da revolução verde se caracterizava pela introdução de sementes produzidas em laboratório, com pouca variabilidade genética, e que geravam plantas dependentes da aplicação de altas quantidades de fertilizantes químicos e água, além da substituição do policultivo de alimentos tradicionais com consórcio e rotação de variedades pela monocultura, basicamente de arroz e trigo.


           
O sistema de monocultivo e a base genética restrita resultaram na explosão das pragas, obrigando ao uso de grandes quantidades de pesticidas. A substituição da adubação com matéria orgânica local pela importação de fertilizantes químicos, a necessidade de comprar as sementes, ao invés de aproveitar aquelas produzidas localmente, e a demanda pelos pesticidas, além da substituição dos cultivos alimentares diversificados por poucas variedades destinadas a mercados externos erodiu a soberania alimentar dos camponeses indianos, tornando-os dependentes de crédito e sujeitos a flutuações de preços no mercado internacional. Milhares de camponeses se suicidaram após se endividarem.
Além disso, as novas variedades introduzidas demandavam uma quantidade cada vez maior de insumos, deixando atrás de si um solo degradado pelo abandono das antigas práticas ecológicas de adubação e manejo. A demanda explosiva de água que caracterizava as novas variedades de plantas e técnicas de cultivo levou a necessidade de construção de megaprojetos de represas e aquedutos, que por sua vez dispararam conflitos políticos pela distribuição de recursos, além de provocar fenômenos como a desertificação e o encharcamento. A promessa do milagre de produtividade e paz da revolução verde erodiu-se rapidamente, deixando detrás de si um rastro de degradação ambiental e endividamento.

A introdução da revolução verde levou à centralização do poder, sujeitando os camponeses a decisões tomadas em altas esferas do Estado indiano, bem como em âmbitos internacionais de poder, o que motivou conflitos que ganharam feições étnicas, com as revoltas da comunidade Sikh. A diminuição do cultivo das antigas variedades consorciadas que resultou da sua substituição pelo monocultivo privou as populações de fontes tradicionais e seguras de nutrientes, e a vasta diversidade genética de plantas cultivadas tradicionalmente, e desenvolvida localmente ao longo de milênios, começou a se perder frente à ubiquidade de pouquíssimas variedades, desenvolvidas em centros de pesquisa e replicadas aos milhões a partir de umas poucas matrizes. Essa uniformização produziu vulnerabilidade, expondo os cultivos à ação de pestes, que passaram a atacar as monoculturas com agressividade crescente, e a perda de um rico patrimônio construído ao longo de muito tempo.

Vulnerabilização genética e socioeconômica, dependência dos agricultores em relação a instituições de crédito e mercados flutuantes, degradação dos solos, uso irracional da água, centralização do poder levando a conflitos políticos e étnicos, erosão da soberania alimentar pela substituição de cultivos diversos e nutritivos por monoculturas dirigidas ao mercado, desempoderamento do agricultor. Esses foram alguns dos efeitos nefastos da revolução verde sobre a região do Punjab, segundo Vandana Shiva.

Em contraste, recorrendo às fontes históricas, ela aponta como os primeiros especialistas britânicos que avaliaram o estado da agricultura na Índia, então uma colônia britânica, Sir Alfred Howard e Dr John Augustus Voelcker, expressaram admiração pelas técnicas de cultivo autóctones, considerando-as sofisticadas e descartando a necessidade, e mesmo a capacidade, de os britânicos introduzirem melhorias nesse campo.

Por detrás de toda essa problemática histórica está a imposição de uma forma específica de saber científico, aquela produzida desde os centros de poder do ocidente capitalista, sobre nações e populações camponesas do então chamado terceiro mundo, também descrito como mundo subdesenvolvido, ou, no eufemismo corrente, “em desenvolvimento”. A antiga narrativa sobre a pretensa superioridade cultural do Ocidente, e a alegada neutralidade política da ciência, servem para legitimar a imposição de um tipo de tecnologia agrícola que atende a interesses econômicos e políticos específicos. Por outro lado, os atores que promovem essa tecnologia descrevem as tecnologias e saberes autóctones como primitivos, de modo a afirmar a sua inferioridade.




Assim, sob a máscara da neutralidade científica e do discurso do desenvolvimento, impõe-se um pacote tecnológico que degrada os sistemas ecológicos, submete os agricultores a uma condição dependente, aniquila o patrimônio genético, desestrutura padrões culturalmente específicos de relações sociais, substituindo-os por esquemas de poder estatal centralizado e pela uniformidade e instabilidade das relações do mercado global capitalista.
           
Na época em que escrevia o livro, no fim dos anos 1980, Shiva já denunciava o novo round da Revolução Verde, que se anunciava como a solução para a diversidade de problemas criados pela introdução do primeiro pacote tecnológico. Marcada pela bioengenharia dos transgênicos e capitaneada por corporações multinacionais como Monsanto e a Syngenta, a nova onda da revolução verde na Índia prometia revolucionar a agricultura através do “melhoramento” genético e da integração direta entre produção agrícola e a grande indústria alimentar. Um exemplo do tipo de tecnologia desenvolvido nessa época são as plantas transgênicas resistentes à herbicidas, que vinculam sementes com agrotóxicos, gerando monopólios de mercado e induzindo à aplicação cada vez maior de venenos nos alimentos que comemos e no ambiente que compartilhamos com inúmeras outras espécies. Além disso, o processo de patentemento de sementes por grandes empresas usurpa populações camponesas do mundo de um patrimônio genético socialmente construído ao longo de milênios, privatizando a vida e submetendo-a ao jogo voraz do lucro capitalista.
           
Shiva critica todo esse processo do ponto de vista técnico e político, apontando para a necessidade imperativa de se fortalecerem caminhos tecnológicos distintos deste, que promovam sustentabilidade, diversidade e descentralização. A autonomia do agricultor e a saúde da sociedade parecem estar intimamente ligados à aplicação de tecnologias agrícolas descentralizadas, baseadas na diversidade genética e de espécies, na utilização de insumos orgânicos internos, de origem local, em resumo, no manejo ecológico dos sistemas agrícolas. Os princípios que guiam as escolhas políticas que se realizam nesse sentido devem ser orientados por critérios socialmente definidos, e não pela lógica fria e gananciosa do grande capital internacional, que se esconde sob o disfarce do progresso científico e da inevitabilidade econômica. Ao romper com a noção enviesada de que a tecnologia proposta pelos grandes centros capitalistas é necessariamente a mais avançada e adequada para todos os povos – descolonizar o saber -, podemos abrir nossa mente para a existência, e pertinência, de diversas formas de produzir alimentos que apontam para formas mais humanas e sensatas de organização social e de relacionamento com a natureza e com os recursos do planeta em que vivemos.




Por: Marcio C. B. Oliveira – Mestre em Relações Internacionais e colaborador do Projeto Reação – contato: marcio_barbato@hotmail.com

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